| Artigo: A Produção de Leite como negócio: organizar e proteger. |
Fonte:Palestra dada pelo Sr. Massaru Kashiwagi em um dia de campo na Fazenda Pinheiros. Qualquer empreendimento deve ser cuidadosamente planejado antes de sua implantação, com uma visão globalizada e ampliada ao máximo, buscando as respostas que ajudarão a viabilizar o negócio. O retorno econômico deve ser colocado como prioridade. Infelizmente, salvo raras exceções, a pecuária de leite no Brasil não tem recebido um enfoque profissional adequado sob a ótica do empreendimento ou do empreendedor, isto é, daquele que assume o risco do investimento. Muitas fazendas estão sendo administradas por técnicos competentes, que buscam de todas as formas ( e geralmente conseguem) atingir índices de eficiência melhores que os índices normalmente indicados como padrão de qualidade. Mas poucas são as que realmente se preparam com uma visão estratégica adequada, avaliando todos os fatores internos e externos que possam vir a influenciar sua atividade. Apenas a busca da qualidade do produto e superação de algumas metas técnicas não assegura o sucesso do empreendimento, ou seja o lucro e o retorno sobre o investimento esperado. Com freqüência temos visto fazenda consideradas "padrão de qualidade" na atividade decidindo pela liquidação do plantel e encerramento da atividade. Por quê? A sabedoria popular costuma dizer que " o bolso não aceita desaforos". E a verdade nua e crua é a propalada "falta de perspectivas para o leite" e a dificuldade de fechar a conta com lucro. Não tenho a fórmula mágica, nem a solução definitiva para esse problema. Nem tenho a pretensão de "ensinar o padre nosso ao vigário". Entretanto, peço licença para expor algumas idéias de comportamento estrutural que poderão auxiliar (na medida possível) a formar um quadro global, ao qual o negócio deverá estar inserido. Vou evitar falar sobre tecnologia operacional. Meu objetivo hoje é mostrar um pouco de tecnologia administrativa e da visão estratégica do negócio, que são pontos fundamentais para alicerçar o caminho a seguir. A premissa básica que vou adotar, apenas para efeito de facilitar a didática de apresentação é de que cada um conhece adequadamente a tecnologia de produção de leite e de cria e recria de novilhas. Dessa forma, tentarei não discutir nem polemizar sobre aspectos técnicos, tais como, mastites, abortos, falta de cio, intervalo entre partos, inseminação e taxa de prenhez, alimentação, manejo, reprodução, genética, etc., etc. Vou tentar explorar um pouco mais o lado ainda pouco conhecido ou pouco divulgado do "business". Conhecer sua operação: Já conceituei anteriormente que para efeito didático vamos considerar que todos conhecemos e aplicamos adequadamente a tecnologia de produção de leite e de cria e recria de novilhas. Entretanto, gostaria de ressaltar que somente isso não é o suficiente. Além da tecnologia aplicada, é preciso algo mais, para fazer uma amarração estrutural que consolide a operação como um todo. Conhecer a operação não significa que o empresário precisa estar em dia com todas as informações do dia a dia operacional, com todos os detalhes. Não. Mas ele precisa saber o que quer, onde buscar os dados de que precisa e decidir os caminhos estratégicos a serem seguidos pelos técnicos responsáveis pela operação. Produção de leite: É preciso conhecer corretamente o custo de produção de leite. Volto a enfatizar - o custo econômico efetivo - de produzir um litro de leite, não confundindo com o fluxo de caixa operacional. Reforçando um pouco mais a idéia, é preciso diferenciar com clareza a situação financeira da econômica. Além dos custos diretos de alimentação, medicamentos, material e mão de obra de ordenha, considerar aqui a amortização do custo de aquisição da vaca, bem como a parcela de custos fixos. Sugerimos efetuar essa amortização em 5 anos, ou 5 lactações. Desta forma, a vaca ao atingir 7 anos de idade, já estará totalmente amortizada. Isto significa que os recursos econômicos para comprar uma vaca de reposição já estará totalmente provisionada. Vejamos em seguida se o resultado econômico, ou seja, receita com venda de leite, menos custos diretos de produção, menos amortização da vaca, resulta em lucro ou prejuízo. Desse resultado, deverá ser ainda diminuído o custo fixo, definindo-se o lucro ou prejuízo final. Produção de Novilhas: É preciso conhecer corretamente o custo de formação de uma novilha até o primeiro parto. Todo este custo deverá ser ativado ou não levado como despesa de produção de leite. Considerar aqui desde o leite consumido, os concentrados, medicamentos, sêmen utilizado, mão de obra direcionada para esta atividade, etc. O ponto de corte será a data da primeira parição. Este é o custo de produção de uma novilha para reposição de plantel. Este valor deverá ser amortizado em 5 anos após o primeiro parto, sendo esta amortização considerada como custo na planilha de custo de produção de leite. É preciso se lembrar que estou prevendo sempre a 1a. parição aos 2 anos e uma lactação por ano, ou seja, 5 lactações. O conhecimento desses valores, de modo confiável, ajudará a tomar uma série de decisões sobre o seu negócio. Vocês poderão ficar surpresos com as informações assim conseguidas. Ponto de eqüilíbrio da operação: É muito importante avaliar qual o ponto de eqüilíbrio e a partir de que volume operacional os custos fixos já existentes estarão totalmente pagos com o lucro da operação. Dessa forma, decisões estratégicas poderão ser tomadas, muito provalmente no sentido de que é preciso buscar maior escala, ou realizar uma redução de custos fixos, ou ainda uma combinação das duas. Conseguir efetuar este cálculo é um passo importante, pois você terá estruturada sua planilha de custos, com a devida separação entre custos diretos de produção e custos fixos, e estará, talvez pela primeira vez, pensando e projetando os próximos objetivos sua fazenda. Capacidade ocisosa: Avaliar cuidadosamente todas as unidades operacionais (ordenha, trator, misturador de ração, etc.), de modo a conhecer a capacidade ociosa, ou a capacidade de aumentar a produção sem aumentar os investimentos. É surpreendente como a ociosidade causa aumento de custos unitários, devido a baixa produção. Novamente, o caminho de aumentar o volume deve ser avaliado (até consumir a capacidade ociosa), pois reduzirá proporcionalmente os custos unitários. Escala de produção: De uma forma genérica, a definição clássica vale também para o leite. O pequeno produtor, sem escala operacional, mas que atua em nível familiar, sem empregados, de forma quase artesanal, pode ter seu nicho de mercado e conseguir lucratividade almejada. O médio produtor, ainda em nível de escala operacional insuficiente, com elevada carga de ociosidade, encontrará as maiores dificuldades para equacionar seu negócio dentro de padrões aceitáveis de rentabilidade. Possivelmente suas chances de lucratividade serão pequenas. Ele sempre poderá avaliar o aumento de escala operacional, sem investimentos relevantes, o que poderá conduzir seu negócio para uma faixa de rentabilidade melhor. O grande produtor, com escala operacional, terá melhores condições de ganho. A busca da escala é importante em todos os sentidos, sempre dentro do espírito de que a escala é importante na medida que possa ser aumentada sem investimentos novos. Sempre que passar para o próximo estágio em que novos investimentos serão necessários, deve-se avaliar cuidadosamente. É preciso ressaltar que em todos estes pontos o preço de venda é de fundamental importância em todas as considerações feitas, portanto, este é um fator que não pode deixar de ser avaliado, trabalhado, e na medida do possível, definido os caminhos estratégicos que aumentem as possibilidades de melhorar através de negociação. Este é um ponto vital, que, não sei dizer exatamente por que, mas aqui no Brasil, tem recebido muita pouca atenção dos criadores, do que se aproveita a indústria e o varejo, na busca dos melhores resultados para o negócio deles. Conhecer seu negócio: Vamos agora passar para uma visão mais macro da atividade, isto é, vamos sair de nossa casa e olhar um pouco o mundo que nos cerca. Vejamos quais são os grandes problemas que nos afligem, além daqueles já tradicionais, que por conveniência didática eu já resolvi, ou seja, as mastites, os abortos, as faltas de cio, etc. Preço do leite; pagamento por volume, e não por sólidos; dependência de poucos compradores de leite, ou até do único em muitos casos; dependência de poucos fornecedores de medicamentos e rações; dependência de um mercado consumidor pouco esclarecido; falta ou até a inexistência de fiscalização quanto a qualidade do leite oferecido nos pontos de venda e grande incidência do leite informal. Neste ponto, gostaria de abrir um parêntese, e dar um pulo para o mercado americano. Lá também, o problema existe, e é tão crítico como aqui. A revista Hoard's Dairyman, edição de novembro de 2001, traz um artigo do Dr. Richard Levins, da Universidade de Minnesota, sob o sugestivo título "os fazendeiros precisam de mais eficiência ou de poder econômico?" Ele cita, por exemplo, os resultados obtidos por pesquidadores da Universidade de Connecticut, que após vários anos de pesquisa, e apresentaram as seguintes conclusões: as indústrias estão usando a musculatura, e não a eficiência, para manter os lucros altos e os fazendeiros se direcionam na busca da eficiência para viver com preços baixos. Isto não parece conclusão de um estudo feito nos Estados Unidos. É exatamente o que acontece aqui, hoje, agora. E, eles fazem a pergunta crítica: "você deve assinar um contrato de fornecimento com a indústria, ou com seus companheiros fazendeiros, para proteger seu ganha-pão?" Este artigo foi traduzido pelo nosso amigo André e será brevemente distribuído juntamente com nossa circular. Voltemos então à nossa lista de problemas brasileiros. A questão básica é: O que estamos fazendo para conseguirmos ter alguma influência em cada um dos tópicos citados acima, como problemas que nos afligem? Está é a questão fundamental que precisa ser equacionada, para que os resultados de nosso negócio comecem a ter um pouco de nossa cara, e não apenas a cara dos industriais e dos varejistas. Como? Caros amigos, não há outro caminho a não ser o da união, do associativismo, do cooperativismo, etc.
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